um destino / ao amor

 Um passo à frente, três espirros seguidos — saúde?

Saúde! Votos saudáveis para o amor que se foi. Chorar de saudade é saúde para o amor que se vai, disse um espirituoso. 

É, o amor se foi  — és o amor que se esvai? 

Chorar de saudade é saída para o amor que, parcialmente, se vai. Uma lágrima busca saída, espero que vá. Um pedestre presenciou e ali, juntos, assistimos sua partida na bicicleta azul que, para mim, naquele dia, estava cinza. Bom, me parece que ele se foi e, com alguma facilidade, comenta o pedestre. Concordo, ele sempre parte no pesar mais denso da marcha e ainda assim, faz parecer ser fácil sustentar o caminho contra o vento. O tempo da partida dele, não se alinhou com o meu relógio, tão pouco, com o calendário, aquele que faz marca no corpo e ainda rememora… sem mais as comemorações. Qual será o destino das fotografias?  Minha boca conserva teu gosto e meus pés ainda procuram os teus para encostar. Não mais servirá de apoio para as minhas costas. Droga! Seu tempo de ir embora não estabeleceu diálogo algum com meu corpo inteiro. Perdi um amor e agora, meu corpo inteiro coriza. Estou enjoada, ensopada, cansada, são outras águas, lágrimas, escritas; não aquelas do início, em momento de temperança com, após o afago do amado, são outras águas; lágrimas-descritas. Um padeiro até viu, meu amor ensaiando despedida por um mês e ainda assim, sair tropeçante, esquecido, deslembrando, olvidando, desmemoriando. Inacreditável, inesquecível. Meu inassimilável, no divã. 

Alguns casais escolhem se casar de frente ao mar, no meio da tarde de um domingo. Nós, escolhemos terminar de frente ao mar, no meio da tarde de um domingo. O tapete de areia foi escolhido, mais uma vez. No início, para outros fins; o meu preferido. O mar, agora, era escolhido para recolher nossas lágrimas, mas se encolheu, optou por não participar, como quem orienta: dêem outro destino às águas. 

Me presto ao trabalho de lacrimejar. A música ‘Domingo’, que tanto escuto na voz de Bethânia desde então, lacrimeja. Sim, pus lacrimejo num canto, dei lugar. Se o amor quer me deixar, me deixe num domingo, eu não vou reclamar - reclamei e, posso até achar que ficar só é lindo - achei horrível. Quem vai me amparar na queda, se te emprestei meus ombros e você, se debulhou neles? / me embalou em teu peito de nadador dessincronizado, hidratou meu cabelo com teu líquido do momento; lágrimas e suor, não aquelas do início, em meio à temperança com, após o afago da amada. Desaguei, por não sustentar a confirmação de tudo que li em sua obra. Minuciosamente, te fiz leitura privilegiada, habitou minha cabeceira nos últimos meses. Te fiz audiobook, leitura narrada em voz alta. Na dúvida, esgarcei cada parágrafo e sua ausência era um fato, seus vinte e um quilômetros corridos disfarçados de vida se confirmam em morte entre o capítulo cinco e seis. Adormeci em meio ao leito, digo, adormeci em meio a leitura e sonhei com o luto, aliás, sonhei com o lido, com o que era lindo; como vou lidar?

Me prestei ao trabalho de lacrimejar. Gostaria de saber se, choras como eu choro? É que na verdade, gostaria de não me sentir sozinha com meu choro na cozinha. Incontáveis vezes chorei ao cozinhar, não pelas cebolas, como você fazia teu choro, mas pelas berinjelas que não foram refogadas por tuas mãos. Tomo nota do que perdi. Pago o preço, não me apago. Chorei por respirar um ar muito próximo, um tanto parecido com o ar que você trazia à minha pele com tuas narinas, quando em mim, descansava. Chorei porque não era teu respiro, em mim. Me presto ao trabalho de notar o que perdi. Meu-corpo-se-assusta, resta você em mim. Teu tempo de ir embora, não se alinhou com meu relógio, tão pouco com o calendário que faz marca no corpo. Alugo um espaço para as sobras, pro que resta de você aqui, bem aqui, em mim… e busco, num passo cuidadoso, um fim, a fim de não me espalhar, mas me espelho no amor que se foi e viro, uma espécie de brincante da sombra do objeto que recai sobre o eu. É necessário se prestar ao trabalho, o que perdi ao te perder? Adormeci novamente em meio ao leito, digo, em meio a leitura… de novo, mas diferente… sonhei com o luto, me levantei ao trabalho, ao lacrimejo. Sonhei com o que foi lindo. Com o que se foi.  quem / o que se foi? / foi.  É, o amor se foi — és um tanto do amor que se vai. 


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