respiro que é susto no corpo inteiro

Travessão — sinal de pontuação que comparece no formato de uma representação horizontal, realizando a marcação de um discurso direto. Da maneira como acordei e me inclinei à existência, travessão é —  também sinal de que a travessia é um pouco mais longa. 

Acordar com a corda — o que significa? / com todo o acorde — o que é? / a música, a letra. Da ponta do dedo do pé à ponta da língua, exerço um soluço ou é um espasmo? / pois estremece o corpo inteiro. Uma letra me desperta e me disponho à escrita com a noção de que se digo é para que nenhuma íngua me acometa. Cometa — corpo celeste descrito por astrônomos como pedras de gelo sujo. Nome bonito e descrição simplória, enxuta. Tal como o discurso organizacional; otimizador da especiosidade de uma explicação que poderia ser extensa e sem pressa. Insistem em. Pressão. No peito. Na língua; causador de íngua.

Engracei-me a outras elucidações. Cometas são restos de poeiras cósmicas e rochas. Restos de nuvens de gás que constituíram o sistema solar e… toda essa representação gráfica são restos, porque outro algo me acometeu quando concordei em acordar. A descrição quase poética sobre a poeira de um sonho, uma música, um cometa. A descrição quase patética a beira de Hipnos — deus do sono na mitologia grega.

Há-deus-para-tudo-nessa-vida. Da maneira como concordei em acordar no tempo presente, discordo de algumas realidades, busco um panorama, a linha de algum horizonte e subscrevo em distração, contando que a contração das mãos exprima, enuncie, comunique, ore, converse, discurse, fale, emita o que quero que se esclareça. 

Disponho-me de tato em meu ponto de escuridão e, todos deste mundo há de se ter um ponto de escuridão e um tato, para além do ocular. Há de se ter um próprio t-ato inventivo, para reparar a ausência de alguma claridade que não é a ocular. Boquejar que há um deus do sono, anula toda a criação cinematográfica de estado onírico e o questionamento do que há de se ter no escombro de uma música repetitiva e receptiva à minha memória? / minha terra. Meu território. Incansável é o questionamento,  mas algo se cansa e adormece. 

O que se cansa é análogo às pernas após uma caminhadura? / o que se cansa são as pernas e o pulmão de um corpo que age por inteiro ao pensar e assim, adormece como a criança que brinca, com o corpo inteiro, durante uma tarde inteira. Um sentido esclarecido em seu tanto, acontece quando os pulmões, relaxam. É possível quando o percebido, torna-se despercebido e algo da ordem do sem sentido, enuncia uma vida. O enamoramento pela questão é um caso sério, cultivado desde o nascimento. As questões de um nascimento, são as incógnitas que mais se alongam, pois são as da existência. Coisa não tão receptiva ao nosso tempo.

Almeja a claridade das letras, mas escreve sem seus óculos, alegando que escrever de óculos é para aqueles que estão acometidos a escrever um artigo. Escrever sem, é escrever com outro algo. É para aqueles que estão acometidos à poesia, aos devaneios das afetações sonâmbulas. Não há extraordinário. É simples e apenas ordinario.

Escrever sem óculos quando não há preocupação milimétrica com as pontuações, mas não sem levar em consideração que há algo a ser pontuado. Mensurado. Recolhido. Escrever sem óculos é para os acometidos de que; o que se escreve em seguida está na ponta das vistas e quase nada mais importa. A não ser a música da ponta da íngua.

A claridade mundana se põe. Com isso, quero dizer que está tarde. As portas estão trancadas, exceto aquela. Tanto as luzes do teu lar, quanto as da cidade, estão em descanso. Espero que não em descaso. Me lembro dos cometas e dos restos de nuvens de gás que constituíram o sistema solar. Me lembro que nem todos possuem um sistema de lar e tempo vital para habitar a causa de uma criação onírica.

O acaso de uma escrita me põe-e-me-tira de um tédio. Do sério. Me põe ao sério da questão. Acometida, meio cometa com meus restos, responsável pela criação cinematográfica do próprio estado onírico; crianças e festas me interrogam. A vida, a morte, o sistema solar e o sistema do lar, com alguma frequência, exclamam e voltam a interrogar. Sinal de que a travessia é um pouco mais longa. 

Se alongam as crianças nos adultos e as festas incansavelmente brincam de carnaval, por um ano inteiro. Astrônomos, poetas, se alongam como alguém que tem algo a dizer. Explicações sobre o sistema so-lar.  As festas e as crianças têm algo a dizer, tal como o que fere. 

Não me livro, muito menos quando escolho e sou escolhida por um livro. Livro-me de? / tal como em uma fotografia, não sei bem se capturei a foto ou se foi ela, quem me capturou. Acometida ao encontro. Consigo. Mesmo? / livro-me; folheando cada página, escrevo-me. Dos sonhos, uma narração. Das festas às crianças que cansadas da brincadeira, ninam em meu sonho / a letra de uma música repetitiva e receptiva à minha memória / minha terra. Meu território é o literal, no qual realiza-se uma pesquisa de si mesma, reafirmando o caso com  uma escrita que me põe-e-me-tira de um tédio. Do sério. Me põe e me tira do adormecimento e põe, ao sério da questão. Acometida, meio cometa com meus restos, responsável pela criação cinematográfica do próprio estado onírico, reflexiva sobre o sistema de lar.

Crianças e festas me interrogam.

Questionamentos recriam o meu estado, meu litoral, meu território. Não se faz questões para que sejam respondidas e nunca mais tê-las, pois seria a morte em corpo vivo. Questões para que o respiro seja o susto que minhas mãos necessitam para retornar ao literal. Meu respiro é susto no corpo inteiro; lembrança de que ainda há o que escre-ver.


Tem respiro que é susto no corpo inteiro; lembrança de estar viva.


Vim, ver.

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